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simplicidade (os descendentes de Macabéa)
20 de outubro de 2009
cida adiava o suicídio e já estava nessa há onze anos.- vou esperar ficar pior. ia ver se ficava pior. continue lendo...
Primeira Vez (ou aquilo que fazemos entre quatro paredes)
5 de outubro de 2009
A primeira coisa que chamou a atenção dela foi o espelho no teto: grande e intimidador. O quarto era simples, bem arrumado e silencioso. Seu próprio coração era o único barulho que ouvia. Gentilmente, ele a empurrou para dentro e fechou a porta atrás de si. Agora era tarde demais para desistir.Ela dirigiu-se vagarosamente ao leito. Notou que o rapaz estava ansioso, o que abrandou um pouco seu próprio nervosismo. E agora? Lembrou-se então dos conselhos da amiga, mais experiente. Um carinho aqui, uma mordida ali: nada de especial. Logo tudo estaria terminado, homens nunca ligam muito para preliminares. Respirou fundo, esvaziou a mente. Pensar, naquele momento, seria inútil. Medo e hesitação só iriam lhe causar mais dor. Os minutos que se seguiram pareceram horas. O corpo dela apenas reagia aos toques dele, movendo-se por impulso. Enquanto ele transpirava e ofegava, ela se observava no grande espelho do teto. Alheia, fingia não ser dela o reflexo que via. Logo ele parou de se mover. Ficaram parados durante alguns segundos, ela sentindo o peso do corpo dele sobre o seu. Ele levantou-se, olhou o relógio e foi ao banheiro. Aos poucos, o som do chuveiro preenchia o quarto e ela voltava à realidade. Sentiu que seu corpo inteiro latejava. O cheiro de tudo provocava-lhe um pouco de náusea. Ele saiu do banheiro, já vestido e penteado. Calçou os sapatos, pegou seus pertences e verificou se não havia esquecido algo. Por fim, abriu a carteira e entregou a ela três notas. “Era isso mesmo, né?”, perguntou ele sem esperar a resposta. Abriu a porta e partiu. Sozinha, ela sufocou a parte de si que queria chorar e apertou entre os dedos o dinheiro. Era só uma questão de tempo até ela se acostumar. continue lendo...
fome (ou Assalto à mão amada)
4 de outubro de 2009
Era a véspera de algum feriado importante. ele não sabia ao certo qual. há um incerto tempo tinha perdido a noção do mesmo. sabia, porém, que era a véspera-de-algum-feriado-importante por ver a agitação das pessoas nas ruas comprando coisas e se preparando pra ir a algum lugar que não aquele onde elas estavam. procurando algum objeto que agradasse e fizesse sentir que estavam vivos. procurando mais ainda alguma figura de cerâmica ou pedaço de papel supervalorizado que pudesse preencher sua ausência na vida de alguma outra pessoa. ele, porém, não tinha nada nem ninguém.tinha fome e isso era visível. a fome era uma sensação estranha. era como se seu corpo em sua inevitabilidade de ser procurasse uma forma de mostrar que ainda existia sua vitalidade, sua energia vital, sua vida. tudo era devir naquela situação. tudo era possibilidade. a fome era esperança da saciedade futura manifestada num presente inexistente. a fome era a véspera. e ele sabia que, apesar de tudo, esse era o melhor sentimento que poderia ter naquele instante. ele gostava da fome. gostava desse impulso. desse pulso de vida sem muita razão. e foi assim que decidiu: pegou sua arma e se dirigiu até a casa dela. sabia que lá podia encontrar o que procurava no limiar de sua sanidade. já era fim de tarde, e o dia estava naquele exato momento em que a sua sombra parece dez vezes maior que você e que aponta para frente. para lá, onde ela já está e você ainda não pensou em chegar. a cada passo ele sentia o seu sorriso aumentando. sabia que já havia quebrado todos os paradigmas da sua vida. sabia que ja tinha jogado tudo ao vento, tudo o que havia inventado. que não havia sensação melhor que essa: a liberdade conquistada, não imposta. e não importa o que dissessem ele sabia que só podia fazer o que seu corpo pedia. era essa a lei. não havia certo e errado. a cada passo ele sentia sua fome aumentando. como passos em uma escada muito alta que ensaia te jogar pra baixo caso você fraqueje. e ele não podia desistir agora. com todo aquele sentimento ele só podia existir. sabia o caminho de cor, era um caminho que ele havia descoberto há pouco mas que sabia antes de conhecer. tocou a campainha com dedos trêmulos e esperou a maior espera de sua vida. maior que toda a sua véspera. ela abriu a porta, linda como sempre, e sorriu. sorriram juntos. sorriram e ficaram um bom tempo em silêncio. como se pensassem em uníssono. (não há nada aqui que possa ser descrito nem entendido sem que haja uma descrição.) ele decidiu então falar. após ensaiar algumas palavras belas e ameaçadoras, sem muitas delongas, ele disparou, fazendo um círculo sutil vermelho e delicado no peito dela. ela então sentiu o que ele sentira por todo aquele tempo, sentira a sua vida passando. sentira a véspera do inevitável. lembrara de todos os sonhos que tiveram sido afogados desde sua infância até o exato momento. e sabia que ali um sonho novo estava se realizando. denovo. sentiu a fome que ele sentiu e percebeu que ela havia se enganado por todo esse tempo com guloseimas pra forrar-o-estômago. sentiu então o amor. aquele amor que respingava em seu peito causado pelas belas palavras bélicas. ela decidiu tomar a arma de sua mão e sem muito ensaio nem jeito disparou de volta. e o tempo parou em volta. ele, agora, não sabia de mais nada. continue lendo...
Cerejas (ou é assim que tenho vivido sem você)
21 de setembro de 2009
Fazia tempo que não tomava chá neste lugar – aquele em que você sempre me levava. Não há muitas mesas ocupadas, procuro sentar longe dos outros e finjo ler um jornal, desinteressada. Uma gota do chá que tomo cai na primeira página, ao lado do último escândalo envolvendo o presidente. Fico por alguns instantes reparando em como o liquido é sorvido pelo papel, deixando uma mancha amarela em forma de sapo ou guaxinim. Aquilo me interessa mais do que a manchete do jornal e resolvo deixar as notícias de lado.Na mesa ocupada mais próxima, um casal parece discutir. Ele fala com bastante paixão, agitando os braços diversas vezes. Ela o fita, sem nada dizer, os olhos semi cerrados e a expressão vazia, como se há muito não ouvisse o que ele dizia. Ela bebe devagar o café e move a cabeça de vez em quando, concordando ou não com o provável namorado. Lembro-me então de você, como não lembrar? Você que fazia discursos tão eloquentes e fervorosos por ideologias distantes, comportamento social, mártires revolucionários e maionese. É, maionese. Lembro como você odiava quando pedia um lanche sem, mesmo sabendo que iriam esquecer. E você dizia: “ta vendo? Eu sabia que iam mandar com maionese, essa coisa nojenta!”. Às vezes penso que de todas as suas discussões-monólogos, esta era a mais verdadeira, a única em que você sabia realmente do que estava falando. Não me entenda mal, não estou ridicularizando sua conduta, mesmo que a considere ingênua. Na verdade, a acho tão pura e rara que só de lembrar, um sorriso acende em meus lábios. Sinto até um pouco falta desta doce presença, já que vamos envelhecendo e ficando tão amargos. E percebo novamente que nossos caminhos só podiam ser separados, pois eu não tinha – e até hoje não tenho – essa energia para definir e discutir a vida: sempre fui do tipo silencioso que só sabe vive-la. Tento, vez ou outra, transformar em palavras o que sinto, mas é como se tentasse desenhar um som ou escrever com cores. Sorvo o último gole de chá e percebo que o casal já está tranqüilo e ele sorri de uma forma muito bonita para ela, mãos entrelaçadas e alianças de noivado encostando-se. Ela agora sorri, também terna e eu invejo aquele sorriso. No fundo, sei que é falso, estampado num rosto que realmente não se sente feliz. É um sorriso vistoso e doce, como aquelas apetitosas cerejas em calda, que nem sequer são cerejas de verdade, apenas maçarocas coloridas e aromatizadas artificialmente feitas a partir de chuchu ou mamão. E quando percebo, a saudade que sinto é tão grande que me sufoca. Não sei se de você apenas, ou de como tudo que fazia me irritava e encantava em igual proporção, ou se também da época em que eu também conseguia dar aquele sorriso adocicado artificialmente. Pago a conta e me retiro. Sua presença ausente vai sumindo aos poucos, até não sobrar nada. Olho a rua, as folhas sendo sopradas pelos ventos, os olhares tão vazios quanto os meus perambulando pelas ruas. Já não tenho o sorriso doce, mas também não me sinto sufocada pela companhia vazia de quem não se ama mais. E é assim que tenho vivido sem você. continue lendo...
vão (ou Sobre o que sobra)
12 de agosto de 2009
E da janela viam-se pássaros.Poucos, escassos, mas pássaros. Pairando sobre um cheiro de não-sei-o-quê. Bom, isso era o que dizia a criança, que cresceu vendo os pássaros amigos, e hoje tem medo deles. Pássaros pretos que escrevem linhas de tristeza no livro de suas histórias. Pássaros rápidos que passam a borracha em todas suas glórias. O quintal ainda é de terra, e lá essa criança brinca pra esquecer. Tão poucos anos e tanta coisa em sua memória. Tanta coisa ruim. Só de pensar que um dia achou o canto dos pássaros agradável e hoje acha ensurdecedor. A raiva é muita, e se sentir impotente só piora. Ela pega seu estilingue. Mira lá, bem longe, no pássaro. Põe todo o seu sentimento naquela pedra. O seu desejo é a força que ela põe no elástico, fecha os olhos e solta... A pedra vai, vai... e cai. A criança continua de olhos fechados. É criança mas sabe da verdade. Já tem pensamentos de adulto. E pra fugir disso cria seu próprio filme na cabeça: ( a pedra acerta o pássaro-do-mal, a poeira baixa e o sol volta a aparecer. É o fim.. o fim não... é o recomeço... ela era o herói, sua cabeça já não dói mais. Vai para perto do lago e se vê de olhos fechados... chega mais perto da borda... ) ... abre os olhos e acorda. Os pássaros ainda estão lá. Mais pesados ainda. Como tudo pode ter mudado assim, só por causa de um não? (aqui, a lacuna de seus anos esquecidos) hoje, o seu quintal ainda é de guerra e lá essa criança brigou pra não crescer. Tantos anos e tão pouca coisa em sua história. Tão pouca chance, enfim. Só de pensar que um dia achou o canto dos pássaros agradável e hoje não acha mais nada. Marchou para seu exército, cantou sua glória, lutou pela história. E hoje, o canto que cobre o manto é o de outra marcha ...a fúnebre. (aqui, a lacuna de seus anos não vividos) Ah sim.... agora eu sei. O cheiro era de gente. Gente morta. Morta pelos mesmos pássaros que transportam gente. Gente podre. Mais podre do que os mortos um dia vão ser. Mortos que vão pro vão em vão. continue lendo... |
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simplicidade (os descendentes de Macabéa)
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